A promessa da simplicidade
Grande parte do conteúdo técnico moderno promove ferramentas DevOps open source com uma narrativa recorrente:
“Instala em minutos.”
“Sem configuração.”
“Funciona imediatamente.”
Para organizações sob pressão de custos, esta promessa é extremamente apelativa. A perceção é clara: menos planeamento, menos investimento inicial, mais velocidade operacional.
O problema é que, em infraestruturas críticas, simplicidade mal avaliada transforma-se rapidamente em fragilidade sistémica.
Um caso real (anonimizado)
Há cerca de dois anos, uma empresa europeia de serviços digitais — financeiramente saudável e em crescimento — decidiu “simplificar” a sua infraestrutura técnica.
O objetivo parecia legítimo:
- Reduzir custos operacionais
- Ganhar visibilidade sobre sistemas internos
- Acelerar entregas sem aumentar a equipa
A decisão foi tomada com base em recomendações online, tutoriais populares e soluções open source descritas como “simples”, “seguras” e “baratas”.
Durante vários meses, tudo funcionou aparentemente bem.
Até ao dia em que deixou de funcionar.
O incidente
Um dos componentes introduzidos para observabilidade e controlo operacional tinha acesso excessivo ao plano de controlo da infraestrutura. Esse acesso nunca foi formalmente classificado como crítico — era visto apenas como uma conveniência técnica.
Uma falha explorada (cuja origem exata nunca foi totalmente atribuída) permitiu:
- Movimento lateral entre serviços
- Acesso a segredos internos
- Corrupção de dados operacionais
- Inutilização de componentes críticos da infraestrutura
Em poucas horas, sistemas essenciais tornaram-se indisponíveis.
O impacto real
As consequências não foram apenas técnicas.
Nos meses seguintes, a empresa foi obrigada a:
- Suspender serviços durante períodos prolongados
- Reconstruir grande parte da infraestrutura crítica
- Reforçar contratos de emergência com fornecedores externos
- Lidar com perda de confiança por parte de clientes estratégicos
A perda financeira total foi estimada em mais de 15% da faturação anual.
O mais relevante:
o incidente não resultou de tecnologia avançada nem de um ataque sofisticado, mas sim de falta de planeamento estrutural e avaliação de privilégios.
O erro fundamental
O erro não foi utilizar software open source.
Não foi adotar containers.
Não foi procurar eficiência operacional.
O erro foi assumir que:
- “Se é simples de instalar, é seguro”
- “Se é gratuito, o risco é menor”
- “Se toda a gente recomenda, deve ser inofensivo”
Em infraestruturas soberanas, estas suposições são perigosas.
Porque este padrão se repete
Este tipo de falha repete-se com frequência porque:
- Conteúdo técnico privilegia rapidez em detrimento de arquitetura
- Riscos estruturais raramente são quantificados
- Incentivos favorecem adoção, não resiliência
- Práticas herdadas da cloud são aplicadas sem adaptação a ambientes locais
O custo real só se torna visível depois do incidente.
Uma abordagem soberana
Infraestruturas críticas exigem um modelo mental diferente:
- O plano de controlo é um ativo de alto risco
- Ferramentas de observação não devem ter autoridade de controlo
- Cada privilégio concedido deve ser explicitamente justificado
- Fricção deliberada é um mecanismo de proteção, não um defeito
Planeamento não é atraso.
É segurança.
Conclusão
A maioria das falhas graves em sistemas críticos não nasce de tecnologia complexa, mas de decisões aparentemente inofensivas tomadas sem análise de impacto.
Em ambientes onde soberania de dados, continuidade operacional e reputação estão em jogo, soluções “baratas” sem avaliação estrutural podem sair extraordinariamente caras.
A verdadeira maturidade técnica começa quando a pergunta deixa de ser
“quanto custa implementar?”
e passa a ser
“quanto custa falhar?”